08/11/2015

Nós em laços

Enquanto lê, escute:

Respire fundo e tente se lembrar daquele dia, daquele pôr do sol. Foi isso o que te trouxe até aqui. Aquela bradicardia. Aquele sorriso. Foram segundos eternos e lentos. Foi um ponto de interrogação desenhado em forma de certeza, para depois se tornar uma certeza moldada em um ponto de interrogação ad eternum. Aquele dia motivou a insistência. Aquele dia motivou a resistência. Aquele dia te fez maior do que você. Mas quando algo não encaixa, de duas uma: ou te machuca ou te transborda. E você sabe que tudo isso vem te cortando há algum tempo.

Lembre-se do motivo pelo qual você se prometeu tantas vezes suportar. Você nunca deu uma gargalhada como aquela antes. Nunca algo te levou tão alto, nem nunca algo te trouxe a um lugar de ar tão rarefeito, tão azul, deixando toda poeira suspensa abaixo dos seus pés. É tudo de fato compreensível, mas, por não conseguir compreender agora, você se corta. Você se fere, se culpa. Se julga. 

Os problemas são maiores do que tombos de bicicleta. Do que joelhos esfolados. Os problemas te cobram desistência e insistem tanto que persistir parece agora ideia de louco, de tolo, de quem paga sorrisos com lágrimas. Mas, no fundo, tente se lembrar que é legítimo bater o pé, fazer pirraça. E que foi legítimo muitas outras vezes. Desistir sempre foi inexistente opção, nem a última chegou a ser.

Você que está aí dentro: fique bem, porque se tudo ainda conspirar contra e te obrigar a, pela primeira vez, nadar no sentido da correnteza em vez de enfrentá-la, você vai ver que, ainda assim, valeu a pena. Esperar. Perder. Aprender. Ainda que no final você sorria menos, pelo menos você saberá que escolheu, por outro lado, sofrer menos.

E, de uma última coisa, relembre-se: não existe ponto final suficiente no mundo que acabe com o que foi e com o que será verdadeiro até que tudo se apague. Você amará para sempre (o que legitima o fato de ter segurado a corda com tanta força, com tanto vermelho, por tanto tempo. Ainda espero e quero que valha a pena continuar segurando).



24/05/2015

A última carta

Enquanto lê, escute:



Coloquei os poemas encharcados no varal e deixei que o sol os secasse. As lágrimas mancharam suas letras, misturaram tudo de novo nas entrelinhas, entre os intercostais, e trouxeram cheiro de saudade, assim como a chuva traz o cheiro de terra molhada. Cabia a mim ver cada folha encolhendo no calor, porque era o máximo que podia fazer: não tive coragem de atear fogo nos papéis, mas não me permiti aquecer-me por dentro depois que você se foi. Tive medo que a temperatura de novas memórias fosse nociva às nossas antigas. Então eu vi ali cada papel ficando mais e mais amassado. Nenhuma folha volta ao normal depois de mergulhada em água. 

Eram todas feitas  de um azul de caneta espalhado, manchado, como o rímel que me escorreu nas bochechas no ônibus, no caminho, nos lugares em que não me encontraria com algum conhecido. Sempre esteve tudo bem para quem me conhecia. Sempre foram sorrisos brancos e fotos com bons ângulos. O mundo ao qual eu pertencia nunca soube que o que me pertencia me trazia menos sangue às veias e menos nutrientes ao sangue. E nunca souberam que eu também já fui seu como aqueles papéis enrugados hoje são meus, longe ali, sofrendo com o frio do vento, se aquecendo ao sol, sem que eu consiga me mover para tocá-los. E você seco. E você em graus negativos.

Então eu respirei fundo algumas vezes, como se o oxigênio fosse o amor de que eu precisava. Amor de quem? E me deitei no granito, amando a sensação inversa da que só meu cobertor me traz. Amando o fato de algo tentar tirar de mim meus 36°C que te mantinham intacto: não havia frio em mim que te congelasse ou calor suficiente que te queimasse. E o meu meio termo permitindo que eu me lembrasse dos dedos e pernas entrelaçados. Do seu sorriso ao me ver abrir a porta.

O céu azul claro de maio acima de mim e nas memórias do nosso casamento. Teríamos sido felizes, não fossem o girar do mundo onde vivemos e a primavera e o verão aos quais não conseguimos suportar. De repente. De repente caminhar contra a rotação e suportar as mudanças do clima tornaram-se um fardo para você, quando fui eu quem carreguei a sua cruz por muito tempo. E, para mim, o peso de ter que desistir ainda com razões para lutar. 

Agora, o chão duro em contato com a minha pele branca, sem causar contrastes nem dor. E aí, uma vida inteira pela frente. Enchi meus pulmões pela última vez, olhei para as folhas já secas no varal, com as letras borradas. Você não terá motivos para se lembrar de mim depois que eu expirar o último ar que me preencheu, exceto por esta carta. Concedo-lhe o resto dos dias que ainda tinha para viver, as memórias de todos os lugares que não cheguei a conhecer, as primeiras palavras dos filhos que não tivemos. E, então, meu diafragma sobe, e eu procuro te manter por perto até o coração perder toda a força que teve para brigar por nós dois, mas nunca por mim mesma.

26/04/2015

Linhas e pontos

Enquanto lê, escute:



A gente sabe quantos pontos teve que dar
para fechar cada corte
e quantas linhas usamos 
para costurar nossos pedaços. 

Só a gente sabe o gosto da própria lágrima 
o vazio de cada soluço
a força feita para abrir um sorriso 
e a dor que dói o cansaço que cansa. 

Só a gente sabe o invisível, o indizível 
e o gosto ruim na boca
as olheiras, as horas em claro 
os espaços e os esparsos.

Só a gente vê a radiografia que não mostra os ossos 
o espelho que não mostra os contornos, 
o escuro 
mesmo quando os olhos estão abertos.
E a gente vê cinza, e a gente vê cinzas, 
e a gente vê nada. 

Só a gente sabe como é dormir no barulho 
conviver com o chão frio 
respirar memórias curtas
indagar se foi pesadelo
e querer que tenha sido. 

Só a gente descansa acordado, 
sente frio no verão, 
se aquece com livros 
e neles se esvai.

Porque só a gente sabe
e só a gente sente 
que precisa sentir menos. 
Que precisa sangrar menos.
Que precisa viver menos.
Porque nossos segundos equivalem a horas
Porque cada dia daria um romance.


12/03/2015

0526



Enquanto lê, escute:





Desaceleramos depois de inúmeros 140 batimentos por segundo. Onde nós estamos? Pela primeira vez em meses, eu quero me encontrar nesse lugar onde o pé no acelerador nos trouxe, por mais sinuosa que seja essa parte da estrada, por mais alto que estejamos, mesmo com todas esses buracos no asfalto e com todos os vazios que te ocupam no momento. A gente pode parar aqui. Ficar aqui, dentro um do outro, guardados em lugares inacessíveis. E nos camuflarmos no pôr do sol usando suas cores laranja e amarelo para ninguém que passe por aqui possa nos ver. Deixe-me tocar a sua mão que repousa sobre a alavanca de marchas, olhar os seus olhos de interrogação e reduzir o giro do motor. A gente fica por aqui um tempo. Eu respiro mais do ar que sai dos seus pulmões, nós sentamos para conversar e, enquanto estiver falando, sentirei com a lateral dos meus dedos os seus cabelos. Ficarei perto o suficiente para ouvir seus pensamentos fluindo na sua cabeça, tentando adivinhar suas feições.


Quando anoitecer, você pode me fazer de cobertor. Faço da minha pele lã. Dos meus membros seus fios. E te aconchego, te envolvo, te abraço e te digo que vai ficar tudo bem. Que nunca vou me arrepender de ter chegado até aqui em cima com você. Que voltar todo essa distância que percorremos, não devido ao tempo, mas à velocidade, será um desdar de mãos semelhante ao abandono de um sonho, que tem sido lindo, por sinal.

Eu posso sorrir para você. Quantas vezes você quiser. Nesse escuro só existirá branco de dentes e brilhos nos olhos. Eu posso te convencer, se você deixar. Mudar meu nome, cortar o cabelo, falar que tenho 30 e que estive nos últimos quatro anos em qualquer lugar, menos aqui. Eu fujo. Enfrento meio mundo. E nós seguimos esse caminho. Eu posso te convencer, se você deixar. Aprendo a jogar tudo para o alto e manter os pés no chão, a fazer de 15 anos, 15 semanas, invento a máquina do tempo. Ou eu posso te convencer, se você deixar. E permanecer aqui, ao seu lado, e entender o seu momento. Eu posso não mudar, escolher enfrentar, tudo por um beijo como o de ontem. E te ajudar, mesmo que em silêncio. Dizer que tudo vai ficar bem, mesmo que tenhamos que nadar contra a maré. Eu subo nas suas costas, você faz flexão, fica mais forte e me protege de todas essas ondas. Você já fez isso antes e já lutou muito pelo que realmente queria. Isso é tudo o que você realmente quer?

Agora, só com a lua por cima das nossas almas, só com a esperança de o sol surgir amanhã por mais segundos lado a lado, encoste seu corpo no meu. E deixe que eu sinta com o meu coração o seu. Disparado ou não, angustiado ou não, todo meu ou não. Quando a gente acordar, ou descemos rumo ao mar confuso que nos espera ou você me traz em casa. A história só pode ser gravada de duas formas daqui para frente: ou como uma quarta-feira à noite ou como um Março inesquecível.

Eu vou esperar. 

19/02/2015

Seu monólogo

Enquanto lê, escute:


Desde a hora em que acordei, andei pensando em te procurar e falar o tanto que queria reviver aquela uma hora de nossas vidas. E poder reparar na roupa que você usava no dia para que a eu de hoje lembrasse você com mais detalhes. Eu queria escutar mais uma vez cada palavra que você me disse, prestar atenção nos detalhes de como você conduziu uma das explicações sobre o ser humano mais lindas que já ouvi. Você falou quase sozinho no diálogo. Falou muito (você sempre fala), mas disse bastante também (como sempre diz). Poucas pessoas no mundo são como você. E eu, bem... Eu demorei um poema para notar isso... Você já vai entender.

Existem muitas pessoas vazias por aí que falam demais, mas têm teorias montadas em cima de um castelo de cartas. O oposto são as pessoas completamente cheias que falam pouco, suas teorias são verdadeiras teses, e pequenas frases que são pronunciadas fazem com que aprendamos lições de vida. E há aquelas pessoas que se assemelham a você, aquele tipo de gente que eu escutaria falar por horas seguidas sem me cansar, que precisa falar por muito tempo para concluir o pensamento, mas que faz de cada frase, não uma lição de vida, mas uma estrofe de um poema que, quando finalizado, é a teoria mais romântica e contraditoriamente mais real possível.

Eu acordei querendo me lembrar de cada palavra. E do jeito que você as articulou, mantendo-me apaixonada por cada coesão. Eu queria relembrar o movimento dos seus lábios, o timbre do seu olhar e o brilho da sua voz, que parecia estar, como eu, fascinada por tudo o que ela própria dizia. E ouvir de novo você falar o único trecho do seu monólogo do qual realmente me lembro com todos os detalhes, pausas para respiração e feições: "Todo mundo precisa ser um pouco romântico para ser feliz". Desde então você virou a prosopopeia de toda a utopia que ocupou minha cabeça nos últimos dias. Ou, dizendo em termos menos complicados, eu só consigo pensar em você desde aquela uma hora próxima às suas não intencionais formas de fazer com que eu me apaixonasse por você.

E hoje, especialmente hoje, eu ligaria se tivesse o seu número só para ouvir sua voz imperceptivelmente contando alguma crônica do dia. E contaria para você que eu sonhei o sonho mais doce da minha vida em uma dessas raras noites, como a de ontem, em que eu não acordo na madrugada. Eu sonhei a noite toda com abraços que me fizeram sentir-me confortável da mesma forma que me sinto enrolada no cobertor no outono, eu sonhei com um beijo bom. E no sonho, toda a ternura do mundo se concentrava na expressão que seu par de sobrancelhas e suas bochechas contraídas, num riso bobo, davam ao seu olhar.

Desde a hora em que acordei, andei pensando em te procurar e falar o tanto que queria reviver aquela uma hora de nossas vidas. Com certeza eu repararia na roupa que você usava, sentiria melhor o seu perfume, gravaria cada palavra e, ao final, diria muito mais que um obrigada. Eu ainda não tinha percebido, semana passada, mas o que eu escutei de você não foi, na verdade, uma das explicações sobre o ser humano mais lindas que já ouvi. Foi a melhor delas. E se você for bom em seguir suas próprias teorias, coloque metade de mim na realidade sem tirar minha outra metade das suas utopias. Eu adoraria ser parte dos próximos seus monólogos e habitar algumas de suas palavras. E habitar boa parte da sua vida.

17/11/2014

Meu infinito verão particular

Enquanto lê, escute:



Água fria no corpo como se isso também refrescasse o sangue que me percorria, quente porque em cada gota havia um tanto de você febril. E, nessa tentativa de me resfriar por dentro, eu queria que a consequência fosse um eu mais frio também, de preferência congelante para que nenhum resquício de sentimento sobrevivesse a temperaturas tão baixas. Eu quis te esquecer porque sabia que, se continuasse a pensar em você, voltaria a morrer um pouco mais do que já morro por dia. Eu faria de você meu verão particular e sofreria no inverno da ausência sua. Flutuaria no deleite das palavras doces e me afogaria em cada até logo sem previsão de volta.

Você não me conhece tão bem quanto pensa, se conhecesse saberia que sou um quebra-cabeças de futuro. Eu vivo de acordar pela manhã e querer que o que eu sonhei aconteça logo. E querer que os sonhos mais românticos acontecessem passaria a incluir você. Eu precisava não pensar mais nas suas mãos em minha cintura e nas vezes em que senti seu coração batendo só de encostar meu peito no seu, porque isso tudo se repetiria como filme a cada vez que eu dormisse e não adiantaria acordar buscando reviver esses instantes. Você não estaria ali mais. Ao menos eu não teria essa certeza.

E, apesar de saber o melhor para mim, ainda assim a vontade de gritar seu nome tomava conta de mim. Fazê-lo ao menos me confortaria, pois o eco da minha voz me faria companhia a te chamar e, dessa forma, eu poderia ficar horas e horas ouvindo seu nome e sobrenome, nem que para isso eu tivesse que falar com todas as paredes da casa.

Eu queria você por perto. Próximo o suficiente para que seus lábios se movimentassem com os movimentos dos meus. Queria apneias causadas pelos seus beijos longos, taquicardias motivadas pelos arrepios que você me causa, queria que meus músculos requeressem mais litros de sangue. Queria o gosto que tudo o que você faz tem, seu timbre de trilha sonora, esse sorriso bobo e branco entre momentos vermelho-cereja e sua alma amarela e inocente guardada nesse olhar de homem.


Queria que você conversasse baixinho comigo até que eu dormisse, depois daquela noite tão longa, tão linda, tão memorável, mas finita. Eu queria que você ficasse comigo mais alguns segundos antes que eu tivesse que te esquecer. Que o sol não nascesse tão rápido, porque seria outro dia e só estaria novamente, com o gosto das lembranças e delas não podendo me lembrar. Eu só queria dormir pelo resto da vida, sonhar um filme nosso e nunca mais acordar para te ter comigo sempre. E poder ser sua sem culpa. Dessa vez, sem a dor do medo de acabar.



27/04/2014

Sorri

Enquanto lê, escute:

Compro um só pão de sal pela manhã, às 6:15. Gosto de esperar que ele esfrie. Pão quente me dá enjoo. E eu me sento na mesa (na mesa mesmo). É ruim sentar numa cadeira quando não se tem alguém para assentar-se noutra. Ali tomo meu café doce e meio morno, mais pra quente que pra frio. Duas colheres de açúcar e uma pitada de sal dissolvido em água.
O short é sempre o mesmo, aquele que vem cá em cima e tem panos faltando embaixo, o moletom mais quente e sem calor tenta cobrir os membros, que não os inferiores, mas acho que ele perdeu algodão de tanto ter sido colocado na máquina de lavar. Pantufas. Assim mesmo que fui à padaria. E em casa assim fiquei. Em cima da mesa. Tomando café com pão. 
A manhã costumava melhor, mas amanhã não pode voltar a ser. Cada canto era preenchido por sentido. Até aquela cadeira vazia na sumária ausência. Até as palavras mais curtas às 6. Até o excesso de monossílabos em uma frase só.
Ausência. Silêncio. Paz inútil para quem quer barulho, turbulências ou sussurros para abafar o que vem de dentro. E agora tudo que me resta é comprar um pão. Um só pão ao som de mim mesma.