11/01/2014

Parou de passar

Enquanto lê, escute:


O tempo parou de passar. Cheguei a essa conclusão ontem mesmo quando tentei fazer com que ele me ultrapassasse naquela estrada rumo a um lugar de paz, vulgo "lugar onde você não exista". Estava esperando que as horas fossem como carros a 180km/h na pista da esquerda, enquanto eu estava nos meus tranquilos 80 de velocidade. Eu até me lembrei de algumas aulas de física do começo do segundo grau. Tentei calcular coisas inúteis. Tudo enquanto esperava o tempo passar.

Cheguei a meu destino, que não era o destino que sempre imaginei que existisse para mim. Sina essa de esperar não existia em minha vida quando eu tinha lá os meus 15 anos. Mas enfim, cheguei. Não onde eu queria chegar, mas onde eu planejava chegar. E nada de ver nenhum carro de hora passando pela estrada. Nenhuma moto de minuto. Ou nem um ciclista de segundo. O tempo parou em algum lugar enquanto naquele lugar eu passava meu ausente e inexistente tempo.

Ele parou naquele dia. O tempo ainda era tempo, as horas ainda não eram carros. Ele parou na sua casa enquanto juntos estávamos na mesa de jantar de frente um para o outro. Ele parou quando aquela última gota escorreu dos meus olhos em seu território. Ele voltou várias vezes na parte em que você disse que era mais fácil seguir sem mim. Acelerou durante todos os momentos de brigas, discussões, durante os tempos em que não ouvimos o que falamos. Ele parou logo depois. E não passou. E se passasse, talvez eu pediria uma carona e deixaria que o tempo me deixasse onde meu tempo me deixou.

Mas ele não vai nem mesmo aqui chegar. Cheguei a essa conclusão ontem mesmo. O tempo parou de passar.


13/12/2013

Unknown 99

Enquanto lê, escute:

Creio que não fomos devidamente apresentados. Quando você me conheceu naquela manhã cheia de ressalga fluindo junto ao vento, só ficou sabendo daquilo que de melhor eu tinha para lhe oferecer. Eu sei que você viu que eu era daquelas que gostava de abraços o tempo inteiro. Também sei que, por mais estranho que soasse um homem formado como você gostasse desse meu jeito, você o amou. E você viu que eu não conseguia parar de sorrir enquanto conversava. Percebeu que eu era atenciosa, que eu fazia as pessoas rirem de vez em quando e, que apesar de ser extremamente observadora, não deixava de dar minha opinião, às vezes errada, no momento certo.

Mas, como já disse, não fomos devidamente apresentados. A vida é injusta e os nossos sentimentos mais ainda injustos com a nossa razão. Se fôssemos apresentados de forma completa, você conheceria uma parte de mim que os sorrisos não mostram, você veria meus defeitos estampados na sua cara. E defeitos, já é bem sabido, quase sempre prevalecem às qualidades. Quase sempre. Quando a gente se apaixona, quando a gente tem esse sentimento de querer largar o mundo para poder ficar horas olhando nos olhos daquela pessoa... Ah, a gente só vê o lado bom daquele(a) que queremos ver toda hora. Sentimentos, vocês são ilusionistas de primeira. São mágicos que conseguem, em um estalar de dedos, transformar as imperfeições em "imperfeições" sem o prefixo de negação.

Mas voltando ao nosso diálogo, você não me conheceu quando nos apresentaram. Você me viu. E só. Naquele dia, você se apaixonou por que o meu superficial o pareceu tão minucioso, tão profundo, tão completo. E não era, apesar de parecer ser. Não era porque o contorno do meu corpo se encaixava ao seu que eu era aquela com a qual você sempre sonhou e nem porque eu insistia em opinar em tudo que seríamos o casal perfeito de ativistas. Você sempre quis ser um, não é?

Sim, eu podia ser tudo aquilo que você imaginou. Você viu meu um por cento e completou com a imaginação os outros noventa e nove. E, de fato, por mínimas as chances, dos outros 99, 98 poderiam ser de fato o restante de mim que você não conhecia direito. Não. Não era. Eu só era aquele um por cento, eu só sou ele. O resto é defeito. Defeito por excesso. Só que você não sabia disso.

Você não sabia que minha carência era insuportável. Você não sabia que minhas opiniões erradas poderiam ser fortes ao ponto de eu não mudá-las até mostrarem o contrário. Eu só acreditava quando me mostravam a verdade. Eu sempre era Tomé até Jesus aparecer à minha frente. Você não sabia quão cabeça dura eu era, nem quão desorganizada eu era, nem que eu chegava a ser chata por querer respostas instantâneas para tudo, até para aquilo que nunca, na história da humanidade, teve resposta. Mesmo não sabendo, você se apaixonou. Droga de paixão. 

Todavia um dia você me conheceu. E, em outro dia, me viu chorando no encontro de duas paredes e um chão, em um dia em que estava em guerra comigo mesma, que me sentia um lixo. Viu que eu não era forte. Descobriu que o motivo do meu choro era aquela sensação de incapacidade por eu nunca conseguir me livrar daqueles defeitos que eu bem conhecia por ter 29 anos de convivência comigo mesma. Eu praticamente joguei na sua cara cada uma das minhas falhas. E eu gritava com você, por mais que você estivesse a centímetros do meu rosto. Perguntava com todas as forças das minhas cordas vocais: "Como você pôde se apaixonar por mim? Eu sou um monstro, eu não mereço. Eu não posso ficar com você, eu não posso viver uma mentira, eu não posso."

E você permaneceu ali. Ao meu lado. Naquela noite em que completávamos nossos 5 anos de casamento. Naquele momento, eu me dei conta de que a paixão havia acabado e se esqueceram de me avisar. Você me beijou a testa, não bem um beijo. Apenas encostou e repousou os lábios ali. Nós nunca havíamos brigado antes, exceto pelas suas cuecas deixadas no chão do quarto e pelas minha mania de querer sempre tudo com exata pontualidade. Eu não queria brigar. Eu não gritei para brigar. Foi só um desabafo.

Você sorriu. E só. Olhando-me quase de um jeito que fez com que minha alma se concentrasse só nas minhas pupilas. "Eu sei bem quem você é" - você disse baixinho, tentando me acalmar - "e você não é nenhum monstro. Na verdade, ser cabeça dura não a torna um monstro. Não querer mudar o mundo não a torna menor do que Mandela ou Gandhi. Ter defeitos não faz de você menos humana. E eu gosto de você, mesmo com todos esses defeitos e você é digna de mim porque você me faz sorrir mesmo com todos eles."

Sim, a paixão havia acabado. Ele sabia de todos os meus calcanhares de Aquiles e de todas as minhas falhas. De todos os pedaços que em mim faltavam para a minha redenção. Eu não era mais um por cento para ele, eu era 100, eu era tudo aquilo que eu achei que em mais de dez anos ele nunca ficou sabendo. A paixão deu seu completo espaço ao amor. Ela havia acabado, mas mesmo assim aquele para o qual eu disse "sim" no altar permanecia comigo. Descobri que ele sabia de mim como talvez nem eu mesma nunca soube. E ele aprendeu a aceitar o meu jeito com o tempo. Ele viu que mesmo os outros noventa e nove por cento idealizados não serem minha realidade, valia a pena estar ao meu lado por aquele um restante cheio de lados bons.

E um dos meus lados bons era ele. Eu também me apaixonei, mas com o tempo comecei a ver quão irritante era o fato de ele sempre estar atrasado. E era "insuportável" o fato de ele odiar falar sobre sentimentos. Mesmo assim eu soube amá-lo como ele me amava. E saber amar... Essa talvez seja a melhor parte de mim. E faz o um por cento valer a pena.

10/12/2013

De novo a dois

Enquanto lê, escute:

Essa mesa de jantar não lhe parece grande, meu amor?
E esses pratos? Um pouco velhos.
Nós precisamos nos mudar. Mudar de casa, que tal?
Aliás, não precisa ser de casa.
A gente pode mudar de cômodo.
É sempre aqui, sempre assim nossas noites de domingo.
Você se assenta lá e eu cá e entre nós há um pedaço desnecessário de madeira.
Não acha?
Desculpe-me. Os pratos não estão velhos, sei que você os ama.
É que eu ando tão cansada desse fundo branco e desse contorno bege.
E cansada desse mesmo vinho que a gente bebe.
Cansada dos domingos.
Parece que passei a os odiar novamente,
mesmo depois de você ter feito com que eu os amasse.
Sabe? Eu sorria. E ria. E depois de tudo eu só ria.
Lavando as louças com você eu ria.
E ria do modo com o qual você as lavava com calma.
Eu ria e ria, rios e rios de risadas.
Mas agora tudo é assim, um silêncio.
Suas gargalhadas são forçadas só para quebrá-lo.
Você não tem mais aquele canto de boca curvado.
As rugas lhe apareceram e eu nem percebi.
Assim como não percebi a lua cheia no céu hoje.
Você gosta quando eu percebo.
Seu olhar anda quieto demais, você olhava para tudo ao mesmo tempo.
Lembra?

Eu olhava para o chão, pensando tudo isso em silêncio.
E do seu silêncio, pude ouvir:

O que aconteceu se o racional ainda me diz que você é você
e eu ainda sou eu?
O que aconteceu se eu continuei sendo o mesmo com você,
você sempre esteve lá por mim,
se a gente se amou por tantas noites do mesmo jeito,
se a gente ainda se ama o mesmo tanto?
Se a gente ainda se ama aquele amor que você nunca acreditou ter intensificadores suficientes para ser descrito?
Por que tudo é tão diferente se o jantar é o mesmo?
Se a mesa é a mesma?
Se até os talheres são iguais, porém um pouco mais novos?
E nossos pés ainda estão juntos por debaixo da mesa?
Somos os mesmos, amor.

Pensei alto demais:

Mas de tanto sermos os mesmos, meu bem, já não somos mais.


09/12/2013

Entre linhas

Enquanto lê, escute:


Você só era mais um dos meus desenhos feitos a lápis 6B em um papel todo manchado de grafite. Seus olhos não tinham tantas sombras, mas o que faltava de sombras nos olhos, contornos tinham a boca. Você tinha um maxilar definido e, mesmo o desenho sendo em preto e branco, sabia que seu par de bochechas eram rosados (rosa escuro, até, quando você sorria). Você possuía ombros largos e o trapézio forte (os traços mais pesados diziam) e, com aqueles rabiscos, você ganhou contorno de herói. Mas eu não o desenhei para que fosse cheio de músculos aparentes, não. Você era símbolo de proteção e sua força era aquilo que você me passava enquanto o olhava ao desenhar.

Você tinha algumas curvas que convidavam o corpo e a alma ao amor. Algumas das suas linhas pareciam linhas de trem que levavam a lugares secretos, a países desconhecidos. Suas trilhas eram confusas, nelas eu me perdia, delas eu me saciava. E saciava-me de algo em duas dimensões que parecia ter três devido às sombras mais próximas à perfeição que eu pude fazer. Saciava-me de um símbolo que criei, despido de blusa, vestido de bermuda e só bermuda.

A cada novo traço que eu traçava, tornava-me mais sua em reciprocidade ao fato de você ter sido, desde o início, meu. Minha mão esquerda o criava de acordo com o que mandava o lado direito do cérebro, meu lado mais confuso, meu lado de desejos, desejos resumidos a você. Meu irracional implorava o racional para que você existisse. Você e seus peitos dos pés. Você e suas mãos que me puxavam para perto, que me pediam mais um rabisco, mais um detalhe em seu corpo. Você me chamava com os seus balões de fala que eu lhe dei. E me queria e me amava e me desejava também.

Esses seus dois ossos que delimitam o final da cintura para o começo das pernas criaram caminhos descendentes, que, com a ajuda da gravidade, jogavam-me para baixo e aos seus pés eu ficava, olhando-o nos olhos. Mais um cílio eu acrescentava, mais um fio negro em sua sobrancelha que tanto lhe dava aspecto de homem sério. Sua seriedade chegou a me causar calafrios, mas eu continuava a curvar os seus olhos para cima e suas pálpebras alinhar para que eles continuassem a me cativar.

Eu lhe dei uma barba rala, falha, por fazer. Veias que levemente saltavam antebraço que só podia ser visto porque a palma da sua mão encontrava repouso na parte posterior da cabeça, na nuca. Não conhecia o seu corpo de costas, mas podia imaginar, podia até desenhar. Mas esse lado escuro da lua seu me convidava a beijá-lo. Beijar-lhe as escápulas, tocar-lhe a coluna em um movimento de queda, sentir vértebra por vértebra com a ponta dos dedos. Você era um Deus. A água que você me provocava na boca não saciava minha sede de você, de conhecê-lo ao vivo, com mais cores além do preto e o branco.

Acabei de dar-lhe todos os traços. Fiquei sentada na escrivaninha, com os pés na cadeira, admirando tudo aquilo que sempre quis e eu fiz. Você ali, tão perto, mas tão inexistente, tão imaginário. Mas tão meu. Mas tão sonho realizado. Você me provocou mordidas de lábio inconscientes e sonhos que me movimentavam da cabeça aos pés, mesmo durante as noites frias em que eu insistia em dormir sem cobertor.

Emoldurei-o e coloquei na parede em que está encostada a cabeceira da minha cama. Desde então passei a dormir de cabeça para baixo só para poder ter-lhe como a última coisa que vejo antes de dormir todas as noites. Você. Meu Deus. Você...



03/12/2013

Dança comigo?

Enquanto lê, escute:



Vem cá. Sente-se. Mas antes, coloque para tocar aquela música que me dá vontade de dançar, sabe qual? Vamos dialogar. Só nós dois sabemos falar essa língua nossa, feita das nossas línguas que se enrolam, desenrolam, atritam-se, perdem o atrito e depois descansam. Pode começar com aqueles seus beijos só de boca. Você sabe que só dos nossos lábios se tocarem todo o meu corpo já quer envolvê-lo, não é? Eu sei que sim, você faz de propósito isso de ficar encostando e desencostando constantemente sua boca na minha. Bom, o segundo passo pode ser se levantar e me puxar junto para dançar com você. Dance comigo devagarzinho enquanto tenta me convencer que eu não nasci para dançar músicas calmas demais. 

Você sabe como meus quadris são. O ritmo preferido deles é mais rápido um pouco do que o que está tocando. Volte ao som, coloque uma algo que me permita rebolar de um jeito suave. Sorria para mim. Não sou boa nisso, mas você saberá que só estarei tentando seduzi-lo de algum jeito. Sorria de novo e, nessa peça de dois, encene uma mordida no seu lábio inferior como se estivesse me pedindo menos uma peça de roupa. Continuarei dançando. Você se juntará a mim.

A sombras que nossos corpos criam na parede descrevem nossos movimentos e, aos poucos, viramos uma sombra só. Primeiro, ela descreve irmãos siameses unidos pela cabeça, depois, dois corpos conversando a milímetros de distância. Meu pescoço se curva para trás implorando-lhe um beijo, mas você não me dá. Continua dançando, com passos curtos, lentos, conduzindo-me. Roda-me e vê meu cabelo girando contra a luz, faz com que eu ria e começa a dançar de um jeito esquisito. Faz-me dar gargalhadas, então. Tropeça. Caímos.

No chão, a gente se encara. Cara a cara. Ralei o cotovelo, mas pouco importa se seu corpo amorteceu o resto da queda. Você tira meu cabelo do meu rosto e da minha nuca. Você sabe quão incomodada fico com cabelo na nuca. Prende-o com a mão, envolve-o como um prendedor faz e me puxa fazendo com que nossas maças do rosto fiquem mais próximas do que duas maçãs ficam na macieira. Eu ali, deitada sobre você, você deitado sobre o chão, nossas pernas esticadas, misturadas, seu céu da boca todo meu... Conto com o tato da ponta daquilo eu me dá o paladar quantas estrelas você tem. Ou melhor, quantas vilosidades você tem. Sinto sua pele arrepiar e de algum jeito sei que você quer minha mão na sua nuca.

Pois bem, lá ela agora está. Como se não aguentasse mais se deixar ser dominado, você me coloca de costas no chão frio, que provoca um choque térmico com o quente que você provoca em mim. Mas não se repousa sobre mim, fica de bruços, deitado ao meu lado, olhando-me nos olhos, intercalando com olhares de cima abaixo. Morde os lábios de novo, mas dessa vez sei que não é encenação. Suas pálpebras meio caídas agora me pedem beijo. Sua pupila extremamente dilatada não está assim porque falta luz, apesar de o ambiente estar à meia luz, com uma meia lua no céu.

“É minguante?” – pergunto enquanto as únicas palavras que de mim você quer ouvir são “te quero”. “Sei lá, Isabela... Você sempre pergunta.” – você responde. Eu fecho a cara e você sabe o motivo. I-S-A-B-E-L-A. Eu odeio quando você me chama assim. E foi por querer. Você riu. Deu gargalhada da minha cara emburrada. Eu quis continuar emburrada, mas ri junto. E ao pé do meu ouvido, agora com os risos quase escassos, você falou: “É crescente, sua bobinha... O lado branco tá pra esquerda.” Uma onda de vontade percorreu-me o corpo e, com ela, uma onda que me dava a certeza de que a outra onda só surgiu porque aquilo, aquele momento, aquelas risadas... Ah... Tudo era puro amor. E um “eu te amo” veio das minhas cordas vocais sem que eu percebesse. Das suas veio um “eu também”.

“Vem, levanta! Quero dançar!” – eu falo enquanto me levanto. Você me olha com essa sua cara linda de preguiça, de sono, de dengo, de... de... Essa sua cara que pede cama, que pede sonho. Você vem resmungando, mas vem. E, como sempre, como para você se algo tem de ser feito, tem que ser feito direito, sou puxada pela cintura pelos seus braços fortes, nossos corpos se grudam feito durex quando se enrola.

A pilha fraca desse seu som acaba. Mas continuamos dançando na sala, na cozinha, no quarto, no banheiro, na cama. Na nossa pista de dança. A noite toda.


29/11/2013

Por entre lenços brancos de partida

Enquanto lê, escute:

Bandeira branca, eu me rendo. Mas não me rendo a um inimigo, rendo-me às mãos de membros quentes que me envolveram, do mar verde claro no qual me afoguei sabendo que poderia ser fatal. Eu escolhi dar a primeira braçada nessas águas turvas e aqui estou não aguentando mais nem mesmo me movimentar. Existe areia movediça líquida?

Tudo começou com aquele sonho, você sabe. Acariciava-lhe os cabelos escuros com a maior inocência do mundo, que me parecia paradoxal quando eu começava a ter os fios loiros dos meus braços eriçados. Desde então, suas visitas no auge das minhas três horas de sono nas madrugadas começaram a ser constantes e os dedos de uma mão não são suficientes para enumerar as vezes em que me levantei da cama chamando o seu nome. O que mais me intriga é que eu posso jurar de pés juntos e sem nenhum dedo cruzado que você realmente já esteve em meu quarto, que em minha cama já estivemos juntos, que sua mão já tocou minha cintura.

Num desses últimos sonhos, nós nos beijamos. Uma sala branca, sem ninguém, foi o cenário de segundos de emoções à flor da pele. Pele sensível à sua respiração, flor que você me deu e disse ser semelhante a mim. Durante esses instantes, tudo o que eu ouvi foi o som de ondas quebrando em alto mar, mesmo estando a mais de 500km daquela orla secreta e vazia que idealizei para nós dois. Como se não bastassem todos os efeitos colaterais que o seu corpo provoca ao meu, você ainda me provoca alucinações.

Sua visita mais recente foi ontem. Você entrou aqui pela janela (acredito ter lido Rapunzel para minhas futuras filhas, mentalmente, segundos antes de dormir). Eu o vi me vendo, observando-me com a palma da mão no queixo e com um sorriso irradiante. O branco dos seus dentes foi amarelando e a luz que deles vinham foi ficando cada vez mais forte, até que meus olhos se abriram e eu percebi que eles estavam incomodados pela luz do sol que passava pela greta da persiana quebrada. No fundo, eu sei que quem a quebrou foi eu, semana passada. Mas, nas últimas 24 horas, me forço a crer que quem a danificou foi você, tentando entrar aqui para ficar mais perto de mim.

Despertei-me então. Na verdade, o sol, que pareceu ter origem no seu sorriso, despertou-me. Acordada, sabia que iria encontrá-lo ao vivo, em cores, em sons e de corpo. A angústia veio logo em seguida. Seria o último encontro e depois só nos encontraríamos por obra do acaso (no entanto, como eu sei que o acaso implica comigo, tinha a certeza que entre nós só haveria desencontros... o que me doeu ainda mais). Abri a torneira do chuveiro, deixei a água cair em mim e, enquanto as gotas escorriam pela parte de trás da minha cabeça, lembrei-me de você acariciando meus cabelos daquele jeito meio “sem dedos” de dar carinho que você tem. Só a palma da mão está presente em seus afagos.

Passei perfume, coloquei aquele brinco que realça o meu tom de pele (como você o descreve). Respirei fundo. Não sabia o minuto no qual você apareceria, mas você sabia que eu estaria ali, pronta para vê-lo abrir a porta.

Cochilei e acordei assustada com o barulho da porta se abrindo. Era você, meu dengo, de cabelo quase seco. Acenou de longe e foi embora. Momentos assim, prefiro descrever sem muito detalhe para ver se a dor passa rápido. Mas eu corri atrás de você, corri contra aquele sentimento ruim que me dominou por instantes e me fez pensar que aquela não poderia ser nossa despedida. E a direção na qual eu ia era a mesma na qual você estava... Entretanto, como sempre, estávamos em sentidos opostos e, pela primeira vez, o destino resolveu me dar crédito, fazendo com que nossos rostos se encontrassem.

Confesso ter sentido um frio na barriga, onde surgiu um viveiro de borboletas. Você me sentiu trêmula naquele abraço que lhe dei. Minhas pernas não mais eram pernas, eram britadeiras em pleno funcionamento. Achei que o chão ia se abrir sob nós. Acho que ele se abriu, mas você me segurou.

Seu cheiro, enfim perto do meu nariz, fez com que uma lágrima escorresse o meu rosto, que, de tão colado ao seu, compartilhou essa gota que se espalhou entre nós. Nós somos bons em nos abraçar, você me causa segundos de paz interna e acredito causar-lhes em você também. Paz que foi se escoando junto com a lágrima e que sumiu quando você se afastou de mim e segurou os meus ombros, olhando-me nos olhos.

“Promete que a gente ainda vai se encontrar?” - perguntei. E com o mesmo doce dessas íris suas, que há três meses reparei existir, ouvi a única palavra que me reconfortou durante uma manhã inteira de espera e ansiedade... “Prometo.” – você respondeu com sinceridade indubitável.

Eu me virei e corri. Eu só queria guardar aquele momento, não queria mais ouvir nenhuma palavra sua, já que alguma poderia não soar suave aos meus ouvidos. Corri também para não mais ver seu rosto sorridente que poderia mudar facilmente com um simples “adeus” que eu desse. Quero guardar comigo os nossos últimos segundos assim: o mesmo abraço de sempre, os mesmos risos de sempre, a mesma alegria ao falar, a mesma reação que a gente sempre teve ao se encontrar.


“Rumo estrada turva, sou despedida por entre lenços brancos de partida. Em cada passo, sem ter você vou mais só...” 
Teletema, de  Antônio Adolfo e Tibério Gaspar

28/11/2013

Primeiro Encontro

Enquanto lê, escute:


         A gente pode ficar por aqui, nesta esquina. Peça sua cerveja, eu vou no guaraná. E, enquanto nós conversamos, pode livremente fazer seus gestos que dão tantas expressões à sua fala. Pode tocar em mim sem querer ou querendo, mas você quererá que eu saiba que foi sem querer. Fale-me dos seus planos, cite um pedaço de uma música do Tom Jobim e, se eu não souber a qual música se refere, cantarole esse mesmo pedaço para mim. Vamos esticar este papo. Segure minha mão de vez em quando, deixe-me reparar, em silêncio, quão semelhantes nossos dedos são. Deixe-me falar sobre como você fica lindo com cara de quem não entendeu o que o outro está falando. Falarei algo que você não entenda de propósito.
Sorria para mim quando estivermos imersos no silêncio. E, quando dele emergirmos, repare em como eu tomo o fôlego, com dificuldade, para falar quando você está perto. Não repare na minha voz trêmula, continue falando como se nada estivesse acontecendo. Eu amo a sua voz, pode falar a noite toda. Então, nos instantes em que você retoma o seu fôlego, o desejo de me aproximar da sua boca aumentará. Se você sentir esse aumento, se aproxime fingindo que não sentiu nada. E continue falando.
Peça outra cerveja, mas o meu guaraná ainda não acabou. Ofereça-a a mim e ria da minha cara feia enquanto eu provo esse gosto duvidoso. Fale “dois minutinhos” antes de se levantar para ir ao banheiro. Eu vou rir de você andando como quem está apertado para fazer xixi anda. Prometo rir discretamente. Na volta, você virá secando as mãos recém-lavadas  na bermuda e, quando se assentar na cadeira que está ao meu lado, perceberá minha saudade (causada pelos dois longos minutos em que esteve a menos de trinta centímetros do meu corpo) só de repousar suas pupilas nas minhas.
Encoste sua perna na minha e mexa-a como quem nada quer, querendo encostar as falanges em meu joelho. Um fio de cabelo meu na sua barba fará com que eu toque o seu rosto para retirá-lo. Sem perceber, tocarei também seus lábios, como se tocasse o teclado mais sensível ao toque. Um sorriso de canto de boca aparecerá no meu rosto e, no seu, um possível franzimento sutil das sobrancelhas, o que demonstrará que você não está entendendo nada, mas, na verdade, tudo já estará entendido. Nos entendemos bem.
            E, entre pedaços de pele juntos aqui e pedaços de pele juntos ali, as superfícies de nossas bocas se encontrarão porque irão querer se encontrar. Sua boca será mais macia que sua voz, sua respiração ficará mais ofegante do que fica quando está agitado. Sua mão irá de encontro com a minha nuca que se contorcerá com o encontro da sua mão. Nossas mandíbulas se movimentarão no mesmo ritmo da música Oceano, que ecoará psicologicamente em meus ouvidos. Você me puxará para perto com a mão que não estiver na minha nuca, fará com que eu sinta nossos corações juntos batendo, nossos pulmões trabalhando à mesma velocidade. Inspirará o que eu expiro, expirará o que eu respiro.
            De Oceano, o ritmo passará a ser o que você quiser. Neste instante, rendida estarei com minha boca na sua, comigo em você. Perto, juntos, colados, grudados como se qualquer afastamento trouxesse a angústia do querer estar perto de novo. Em seu ouvido direito, escutará “me leve para onde quiser me levar” quando o gosto do seu beijo ficar tão bom que fará com que eu queira descobrir o gosto de ser sua.
           Então, a gente não poderá ficar por aqui mesmo, nesta esquina. Roube-me, sequestre-me e esqueça que tudo isso pode ser errado. Se parecer certo e motivador do meu sorriso, eu não ligo. Apenas me leve para onde quiser me levar.